Notícias da Santa Sè


Christus Rex Information Service


7 de Abril de 1996

Boa Páscoa!


PÚBLICO - Domingo, 7 de Abril de 1996 - Sociedade

As provas da ressurreição

Frei Bento Domingues, O.P.

1. Participar na liturgia da Semana Santa implica, pelo menos, tentar perceber a significação actual da polémica infindável do processo de Jesus, apresentado por quatro narrativas evangélicas diferentes, interpretando-as no contexto dos conflitos que atravessam as sociedade no final deste milénio. Mas, se não quisermos saltar para fora do túmulo da nossa resignação, corremos o risco de não passar da conversa fiada. Kurt Marti, disse-o de uma forma suficientemente provocatória:

"perguntais

em que consiste

a ressurreição dos mortos?

não sei

perguntais

quando é que acontecerá

a ressurreição dos mortos?

não sei

perguntais

se existe realmente

a ressurreição dos mortos?

não sei

perguntais

se há ou não há

ressurreição dos mortos?

não sei

sei

apenas

o que sempre esqueceis:

a ressurreição dos vivos

sei

apenas

que Ele nos chama:

a uma ressurreição aqui e agora"

(Cit. por E. Drewermann, "Sermons pour le temps pascal", Paris, Albin Michel, 1994, p. 243)

2. De facto, a ressurreição depois da morte não pertence a nenhum saber catalogado no campo das ciências. O acesso a esse nível de realidade não pertence ao domínio da razão que manipula objectos. É no campo das experiências que alteram o sentido da vida presente que pode ganhar consistência a esperança na irrepresentável "outra margem" do abismo cavado pela morte.

Dostoievski, o autor dos "Irmãos Karamazov", depois de muitas aventuras, esteve dominado, anos e anos, pelo vício do jogo, onde gastou o que tinha e não tinha. Passou quatro anos na Europa, fugindo dos credores e da família. Chegou à humilhação do ridículo extremo: perder "no inferno da roleta", até o mais belo xaile da sua esposa, Ana Gregorievna, assim como o seu anel de noivado e os brincos.

Na noite de 18 de Abril de 1871 escreveu-lhe de Wiesbaden: "Ana, é preciso que me dês uma última chance, é preciso que acredites em mim. Quem sabe quantas vezes te jurei que nunca mais voltaria à mesa do jogo. Sei que tens, mais uma vez, mil razões para não acreditares em mim. Mas, depois desta noite, sei que agora é verdade. Um novo homem ressuscitou em mim. Doravante, trabalharei, amar-te-ei e amarei os filhos. Não irei ter com nenhum padre. Iriam repisar no meu passado e encerrar-me nele. Confesso-te a ti toda a verdade: o que era e o que sou. A partir desta noite, sou um homem livre."

Ana acreditou e era inteiramente verdade. A celebração da Ressurreição de Cristo ressuscitou esse homem que tinha percorrido todas as sombras da morte, numa "louca e talvez indecorosa sede de vida", como ele próprio confessa. Tem razão Kierkegaard: a melhor preparação para o cristianismo é o aprofundamento da existência.

3. Foi na experiência que tudo começou. Quando os discípulos viram o abandono em que morreu o Mestre crucificado, morreu neles a esperança de chegar ao poder e fugiram: Jesus e o projecto em que tinham acreditado passou a ser uma causa definitivamente enterrada. A velha sentença das Escrituras - "maldito aquele que morre no madeiro" - selava para sempre um destino.

Sem este pressuposto elementar, as narrativas do Novo Testamento em torno da Ressurreição perdem a sua força de contraste. Não estão escritas para mostrar a Ressurreição de Cristo. Desta não pode haver nenhum "filme", nenhuma reportagem. O que terá Deus feito com Jesus de Nazaré depois de sepultado é algo que está para além do empiricamente verificável e não pertence ao que pode ser historicamente comprovado. Este textos destinam-se a contar a ressurreição: a conversão dos discípulos depois de terem abandonado o Mestre na cruz. Referem-se sobretudo às experiências do desastre. O que pertence ao domínio da História é esta reviravolta que nada deixava prever: Jesus Cristo, tido por um caso arrumado, tornou-se, de novo, a paixão dos discípulos. Nunca Cristo esteve tão vivo.

Em todo este processo, o comportamento dos homens e mulheres não foi igual. Mas o que é sublinhado como sendo comum a todas e todos é a cegueira. Ao não terem percebido o sentido das opções de Jesus de Nazaré e o trágico desenlace da sua vida, tornaram-se incapazes de ver o essencial: de uma existência de insurreição só podia brotar a ressurreição; não há sepulcro que possa reter a Vida entregue a fazer viver.

As narrativas são a este respeito taxativas: enquanto não mudam de olhar, os discípulos confundem tudo, e das formas mais caricatas. Note-se, porém, o seguinte: é no contexto da experiência de abertura às interpelações mais insólitas, de um desconhecido que lhes surge no caminho e que convidam a ficar com eles, que reconhecem - "ao partir do pão" - que Jesus Cristo se tornou o companheiro invisível da aventura humana. É esse o tecido do espantoso conto dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24).

Tudo isto para dizer que só há um argumento para "provar" a Ressurreição de Cristo: saltar para fora do sepulcro da resignação com as fatalidades da História:

"Vamos, ressuscitados, colher flores!

Flores de giesta e tojo, oiro sem preço...

Vamos àquele cabeço

Engrinaldar a esperança! (...)

A seiva acorda, nada está perdido."

(Miguel Torga, "Diário", IX)


PÚBLICO - Domingo, 7 de Abril de 1996 - Sociedade

Sexta-Feira Santa no Vaticano

Católicos rezam pela saúde do Papa

Ao presidir à cerimónia da Sexta-Feira Santa, comemorando a crucificação de Cristo, o Papa João Paulo II ouviu ontem a oração dos fiéis que rezaram pela sua boa saúde. O serviço da "Paixão de Cristo" na Basílica de S. Pedro, no Vaticano, foi a terceira de três cerimónias que o Papa, de 75 anos, dirigiu no dia em que os católicos assinalam a paixão e morte de Jesus Cristo.

"Oremos pelo nosso Santo Padre, Papa João Paulo, para que Deus, que o escolheu para ser bispo, lhe dê saúde e força para guiar e dirigir o sagrado corpo de Deus", leu um dos fiéis, em inglês, durante o serviço.

Orações pelo Papa, líder dos 960 milhões de católicos romanos do mundo, já tinham sido lidas antes desta cerimónia. Esta última vem na sequência das preocupações sobre o seu estado de saúde que se generalizaram quando, há um mês, o Papa contraiu uma febre que o obrigou a cancelar várias iniciativas.

João Paulo II tem aparentado estar de relativa boa saúde, apesar de por vezes evidenciar cansaço nos eventos públicos. O Vaticano diz que o Sumo Pontífice não tem problemas graves e, no mês passado, negou com indignação a notícia de um jornal espanhol que dizia que ele sofreria de cancro.

Durante a maior parte do serviço de ontem, o Papa, vestido de vermelho e branco, ficou a contemplar uma assembleia de vários milhares de pessoas, enquanto padres recitavam em latim e italiano os diversos passos do caminho de Cristo e da morte na cruz. Na cerimónia foram também ditas orações pelos judeus, pelos não-cristãos, pelos ateus e pela paz e justiça no mundo.

A Sexta-Feira Santa começou, para o Papa, ouvindo as confissões de católicos anónimos na Basílica de S. Pedro. Trazia uma capa negra em cima da veste branca e sentou-se num dos confessionários normalmente utilizados pelos padres que administram as penitências aos católicos.

Foram escolhidas, ao acaso, 12 pessoas, seis homens e seis mulheres, que se confessaram directamente ao Papa, uma a uma, num total de 90 minutos.

A terceira e a mais colorida cerimónia da Sexta-Feira, que o Papa instituiu como tradição um ano após ser escolhido em 1978, foi de tarde: a procissão do "Caminho da Cruz" em volta das ruínas do antigo Coliseu de Roma. Desde o começo do seu pontificado que o Papa tem levado, nas próprias mãos, uma grande cruz de madeira, parando nas 14 estações simbólicas. No ano passado, enfraquecido por uma fractura recente na perna, só carregou a cruz metade do percurso. Este ano estava também previsto que levasse a cruz apenas numa parte, sendo o resto do caminho cumprido por vários homens e mulheres.

Reuter


PÚBLICO - Domingo, 7 de Abril de 1996 - Sociedade

"Novas chagas inquietantes..."

Um professor de biofísica e padre francês, Jean-Baptiste Rinaudo, aproveitou o fim-de-semana de Páscoa para fazer uma forte defesa da autenticidade do "Santo Sudário" de Turim. Segundo ele, o método do carbono 14 - que em 1988 considerou uma falsificação da Idade Média o pano em que, supostamente, Jesus Cristo teria sido amortalhado - comete um erro de 13 séculos. Hoje, os católicos de todo o mundo comemoram a ressurreição de Cristo, em dias marcados pela mensagem pessimista de João Paulo II.

No dia de hoje, Domingo de Páscoa, celebra-se a mais importante das datas litúrgicas da Igreja Católica, com 960 milhões de crentes a comemorar o grande mistério da ressurreição de Jesus Cristo. Uma data que o Papa João Paulo II marcou com mais um vigoroso ataque contra o aborto e as injustiças no mundo.

Ao usar da palavra, sexta-feira, na última estação da Via Sacra, no Coliseu de Roma, local de martírio dos primeiros cristãos, o Papa denunciou o "conluio contra a vida" das pessoas e dos povos e evocou os sofrimentos dos homens ao longo dos séculos e o "longo rasto de dor e sangue que atravessa a história."

"Sangue e sofrimento marcam também a nossa época. Como poderemos não estar preocupados", exclamou João Paulo II, "perante o impressionante conluio contra a vida", com as ameaças "contra pessoas e povos que se multiplicam e agravam sobretudo quando a vida é fraca e sem protecção?"

"Novas chagas de dimensões inquietantes", disse o Sumo Pontífice, "juntam-se às chagas antigas e dolorosas da miséria, da fome, das doenças endémicas, da violência e das guerras."

A cerimónia ficou também marcada, em contraste com o vigor da sua mensagem pascal, pela notória fragilidade física de João Paulo II. Ao contrário do ritual que estabeleceu um ano depois de ser eleito, em 1978, o Papa Wojtila, de 75 anos, apenas transportou a cruz de madeira da primeira para a segunda estação da Via Sacra, e da 13ª para a última, devido a problemas de locomoção resultantes da intervenção cirúrgica a que foi submetido, há dois anos, após a fractura de um fémur. Ao longo das restantes etapas, como se sabia já antes da cerimónia, a cruz foi transportada por uma religiosa bósnia, de Sarajevo, uma professora de inglês de um centro inter-étnico da Bósnia, pelo cardeal Camillo Ruini, de Roma, por um casal e por estudantes.

A Bósnia, aliás, de modo mais ou menos directo, esteve no centro das restantes mensagens lidas durante as 14 estações da Via Sacra, que marcam o momento da condenação à morte de Jesus, pelo cônsul romano Pôncio Pilatos, até à sua morte e colocação no sepulcro. As meditações foram escritas pelo cardeal Vinko Puljic, arcebispo de Sarajevo, que sublinhou os quatro anos de guerra e genocídio na ex-Jugoslávia. Numa delas, Puljic referiu as "prisões desumanas, campos de extermínio, regiões sujeitas a limpezas étnicas e as colunas de refugiados."

Sudário: a datação é que está errada?

Um Domingo de Páscoa que ficará ainda marcado, para muitos católicos, por uma nova defesa da possível autenticidade do "Santo Sudário" de Turim, o pano em que teria sido embrulhado o corpo de Jesus Cristo e no qual, supostamente, ficaram impressas as marcas do seu rosto e chagas no momento exacto da ressurreição.

Um padre francês, com formação em biofísica, veio ontem defender que, após várias pesquisas científicas e históricas, se pode calcular que o sudário data efectivamente do século I da era cristã, contrariando a datação feita há alguns anos, por peritos em carbono 14, que concluíram que a mortalha é apenas uma relíquia falsa, elaborada na Idade Média.

O Santo Sudário é um peça de linho de 4,36 metros de comprimento por 1,19 de largura que, para o padre Jean-Baptiste Rinaudo, de 67 anos, tem mesmo impressa a cara de Cristo: "Todo um feixe de convergências me fazem dizer que o homem" - cuja imagem se reflecte no pano encaixotado desde 1578 na catedral de Turim, em Itália - "é mesmo Jesus."

A autoridade do padre Rinaudo advém de não se tratar de um homem conhecido por ser dado a fantasias. Apaixonado pelo enigma do Santo Sudário desde jovem, Rinaudo é doutorado e foi mestre de conferências na Faculdade de Medicina da Universidade de Montpellier (sul de França), no laboratório de Medicina nuclear.

Segundo Rinaudo, a datação pelo método de carbono 14 efectuado em 1988, que situa a idade do lençol entre 1260 e 1390, pode conter um "erro". Para datar o tecido, seria à partida necessário explicar "como é que se formou a própria imagem", diz o padre, citado pela France Presse, "o que continua a ser um enigma". "Especialistas norte-americanos provaram em 1978 que não se tratava de uma pintura ou de um desenho, mas de uma oxidação da celulose do linho", excluindo assim que se trate de um falsificação feita pela mão do homem.

Partindo da hipótese de uma "irradiação", é necessário "refazer a montagem do encadeamento de causalidades", explica, apresentando os complexos cálculos e as múltiplas experiências efectuadas, que serão em breve objecto de uma publicação científica.

Os "bombardeamentos" de protões sobre o tecido, efectuadas no centro de estudos nucleares de Grenoble, mostraram, acrescentou Rinaudo, que estes "formavam a imagem", visível após o envelhecimento do tecido. Estes protões não podem vir, disse o padre, se não da "ruptura do núcleo de hidrogéneo pesado, o deutério" que liberta protões e neutrões.

Os primeiros vão "formar a imagem, os segundos vão enriquecer o tecido branco de carbono 14, e assim falsear a datação", afirma o padre Rinaudo. Como prova, lembra o linho de uma múmia egípcia, datada de 3400 a. C. que foi irradiada com neutrões no reactor Orphée de Saclay. Um laboratório de Toronto, depois, datou a múmia como sendo de "46 mil anos no futuro, quer dizer um rejuvenescimento de 500 séculos."

Segundo os cálculos, feitos pelo padre, sobre o "fosso" de 13 séculos entre as duas datações até agora possíveis do Santo Sudário, demonstra-se que a quantidade de protões que terão dado origem à imagem correspondem ao volume de neutrões necessários a um envelhecimento de 13 séculos.

Numa polémica em que o Vaticano se tem desde sempre mantido à margem, outros investigadores, como o director de um laboratório russo, o também padre Dimitri Kuznetov, têm contestado a validade do carbono 14 como método de datação do sudário de Turim.


PÚBLICO - Domingo, 7 de Abril de 1996 - Sociedade

Carmelo do coração do mundo

António Marujo

Mário Soares passou por lá, um dia. E gostou. É o Carmelo do Coração Imaculado de Maria, no Porto, entalado entre vias rápidas, linhas férreas e prédios indiscretos. Estão no coração do mundo, explicam as monjas. Aqui, reza-se, trabalha-se, acolhe-se quem chega como há muitos anos. A tecnologia, os computadores permitem hoje coisas que até aqui eram inimagináveis num mosteiro. E o telefone possibilita até que alguém vá a lista procurar o seu destino religioso...

A irmã Gabriela de Santa Maria, 25 anos, postulante do Carmelo do Coração Imaculado de Maria, no Porto, procurava uma congregação religiosa que

respondesse ao seu desejo interior. Várias pessoas lhe foram aconselhando contactos com congregações de vida activa. Não sabia bem que estilo de vida queria, mas nada do que lhe referiam lhe interessava. Até que se decidiu ir à lista telefónica. E leu: Carmelo do Coração Imaculado de Maria. E telefonou.

A história da irmã Gabriela não é vulgar. Normalmente, quem procura um Carmelo, já sabe que quer uma vida de clausura. Mas, nestes casos, também não é à primeira que tudo fica definido. Fazem-se várias conversas, procura-se entender porque é que a pessoa busca o mosteiro. Tempos houve, tempos antigos já se vê, em que as candidatas ficavam fora da porta. Para perceber se autêntica era a busca. Ou se, pelo contrário, antes se estaria perante o desejo de fugir do mundo, das pessoas. Ou diante de alguma fobia ou traumatismo.

"Aqui não há fugas possíveis, não há escapatórias nem compensações", diz a irmã Maria do Rosário, madre do convento até há pouco tempo. Uma adesão, portanto, que se faz pela positiva ou não se faz. "Se alguém foge de alguma coisa, não aguenta muito tempo", completa a actual superiora das monjas, Vera Maria de Jesus, 41 anos.

Não fugir do mundo. Mas assumi-lo, e assumir "as noites de fé que o mundo tem". "Não temos aqui morada permanente", rezavam as monjas na oração de vésperas. Não fugir do mundo. A separação física já quase só funciona como símbolo. Por exemplo, o locutório, onde se recebem as pessoas de fora. As grades apenas ali estão para dizer da diferença dos espaços. Por elas já podem mesmo passar as mãos, os abraços, as saudações. Manifestações da afectividade, da amizade, tanto tempo proibidas.

A fidelidade

Há uma notícia que a madre Vera Maria tem que dar às 18 irmãs do mosteiro.

Chegou por fax e, "infelizmente", vai ter que a ler. Na Argélia, tinham sido raptados, na véspera, sete monges cistercienses. Há um "oohhh" na sala, cortando de espanto a boa disposição dominante do início da recreação. "Foram arrancados ao mosteiro" por um grupo islamista armado, "tememos o pior", dois monges conseguiram escapar. Ironias que a vida tem, os monges raptados eram membros de um grupo de diálogo cristão-muçulmano. E já tinham sido visitados várias vezes pelos "irmãos" da montanha, informa a carta.

Pedem-se orações, carta encerrada, "vamos a uma cantiga." A madre Vera pega na viola, na sala também há um piano, um globo, uma imagem da Virgem e uma televisão. Deixou de funcionar, "por falta de uso", serve agora para ver vídeocassetes com temas formativos sobre a regra carmelita, São João da Cruz, Santa Teresa díÁvila.

"Pela senda escura, tão escura, forte a carmelita vai", além de tocar, também compõe muitas das canções que animam os tempos comuns, "segue a atracção do amor, perdida do seu Senhor." Aprendeu a tocar aos 13 anos, as vozes do conjunto fariam inveja a muitos.

Boa disposição, risos, jovialidade, "nunca taciturnas nem macambúzias", asseveram. A atitude repete-se quando se pede um retrato de grupo, no claustro. Só se impressionam com o que vêem lá fora, quando calha sair: "A maioria das pessoas que se cruza connosco têm cantos da boca caídos, sinal de depressão." O véu cobre-lhes a cabeça, mas o olhar vê fundo.

São várias gerações, "é uma família, é como estar com os avós", diz a irmã Gabriela, a propósito do convívio permanente entre as irmãs mais novas e as mais velhas - no caso, a irmã Joaquina de Nossa Senhora do Rosário, 83 anos, há 48 no mosteiro. Ainda se lembra de como eram os tempos que já lá vão, quando a carmelita entrava no mosteiro para, em princípio, morrer para o mundo, nunca mais ver a família. Ou das grades do locutório. Ou das irmãs rodeiras externas, assim chamadas porque eram as que faziam o serviço do mosteiro que implicava contactos com o exterior. E que faziam toda a sua vida monacal do lado de fora da casa. Como a irmã Natividade, 55 anos, há 32 no carmelo e que agora faz a sua vida do lado de dentro. "Sinto-me feliz por isso."

Cada instante, por menor que seja, é razão de conversa durante a hora de recreio: a mãe que está doente, o bordado que uma está a fazer, alguém que passou pelo carmelo, um episódio engraçado dentro da comunidade. E a divisão que, há alguns anos, atravessou as carmelitas, com um movimento liderado por uma monja espanhola, a insistir na importância das grades, da separação do mundo? "Fomos sempre pelo regresso às origens, mas numa fidelidade criativa."

"Fidelidade criativa." Aqui está uma expressão que se deve anotar. Esse movimento - chamemos-lhe "fundamentalista", arrisca a irmã Maria do Rosário -acabou por ficar reduzido a cerca de dez por cento dos 650 mosteiros e 15 mil monjas que existem no mundo. "Voltar à origem, sim, mas numa atitude criativa para os nossos tempos."

Vocação? Foi difícil, para muitas, romper com a oposição dos pais. "Quase todos reagem mal" quando a filha anuncia que quer ir para o carmelo. Alguns cortam mesmo relações durante anos, outros, poucos, aceitam bem, depois todos acabam por se reconciliar com a situação, afinal "uma filha é sempre uma filha". Vocação? "Como é que um homem e uma mulher se gostam?", devolve a irmã Maria do Rosário. Se fosse hoje, "faria a mesma coisa, até mais". À pergunta, respondem quase em coro, atropelam-se as respostas, cada uma por si, a mesma afirmação por todas. "São mistérios." "Passa pela experiência de cada pessoa." "A vocação é uma questão de amar Jesus Cristo e sentir desejo por Ele."

O desejo. Dele se omitiu, proibiu tantas vezes a referência. Tabu. "A afectividade é uma riqueza, e vai mais longe que a genitalidade. O facto de não ter um lar nem um parceiro não deve empobrecer-nos nem mutilar-nos, porque temos a afectividade repartida por muita gente. Jesus Cristo não é uma ideia nem uma filosofia, é alguém que está muito presente." Palavra de monja.

A crise

Sete vezes ao dia, entre as seis da manhã e as 23h00, se reúnem as irmãs para a oração. Convoca-as o sino do claustro, tocado, rezado, pela irmã Maria de Jesus, 34 anos. Do coro, as vozes chegam em forma de harpas e cítaras, de anjos e crianças, de címbalos e alaúdes, harmonia de passado e futuro. "Tu és a nossa alegria, na glória da tua glória." Na oração de vésperas, pela tarde, reza-se pelos cistercienses raptados na Argélia, e pela paz para as nações em guerra. Ouve-se um sino distante, passa o comboio ali em frente, tudo se compõe na plenitude de um instante.

A porta está aberta para quem toca - de preferência, entre as nove e o meio-dia, e entre as 16h00 e as 17h30. A missa e "às vezes alguma oração também têm a participação de pessoas que vêm de fora. O telefone e o locutório servem, muitas vezes, de "consultório psiquiátrico". Gostavam de ter mais propostas para quem as procura, mas a zona onde se encontram tolhe-as, ainda: o comboio, uma via rápida, o metro de superfície vai passar por ali, um imóvel de oito andares está previsto para a frente do carmelo, há gente dos prédios vizinhos que vem espreitar, com binóculos, quando as irmãs atravessam o pátio ou tratam da horta.

Ninguém pense que estão as monjas postas em sossego: o tempo, aqui, "não chega para tudo". A comunidade trabalha para o seu sustento, às vezes há ofertas que vêm de fora. São elas que tratam da pequena horta, da limpeza, da cozinha, pintam, produzem hóstias, fazem costura, rezam, ensaiam as músicas. É esse o silício da actualidade: "Tudo tem a a sua época e o silício hoje tem uma conotação sadomasoquista", constata a madre do mosteiro. "Hoje trabalhamos muito, talvez mais do que devíamos. Trabalhar com alegria, paz, canseira, tudo isso é uma penitência."

Que o diga a madre Vera Maria: pinta (óleos, aguarelas, papiros, pergaminhos), faz traduções, dá uma mão na actualização da biblioteca, desenha por computador. Na pintura, os seus preferidos são os impressionistas, Van Gogh, Dégas, Renoir, Rembrandt. No computador, os programas de ilustração, de desenho e de composição musical merecem uma demonstração, ali estão as Concordâncias de S. João da Cruz em 24 de ram e 500 de disco. Às segundas-feiras, à conta do computador, e por causa do suplemento respectivo, o PÚBLICO é compra obrigatória. Em outras ocasiões, épocas eleitorais, acontecimentos importantes, também se compram jornais. Vários.

Para ajudar no orçamento, as carmelitas também faziam edição de postais, mas a concorrência de uma congregação religiosa estragou-lhes o mercado. E já ouviram dizer que a mesma congregação se prepara para entrar na produção de hóstias. Agora, sobrevivem à custa das hóstias, será que também elas vão saber o que é a crise económica profunda?

Um dia, era 8 de Maio de 1990, passou por lá o então Presidente Mário Soares.

As irmãs tinham escrito também a ele, a pedir ajuda para umas obras de restauro. Soares esteve mais de uma hora no carmelo, não deixou dinheiro, mas ofereceu uma fotografia e um autógrafo: "Tenho o maior gosto em visitar a congregação e em reflectir com as irmãs sobre a solidariedade e o amor ao próximo, no dia da solidariedade social."

O carmelo, faça-se a síntese, "é um tempo de deserto: Deus está muito próximo, mas na nuvem. Talvez mais do que nunca, o mundo tem sede de Deus, nós estamos no coração do mundo."


PÚBLICO - Domingo, 7 de Abril de 1996 - Sociedade

O Monte e a madre

"Permaneça cada um na sua cela, meditando dia e noite na Lei do Senhor, e velando em oração a não ser que a obediência o traga ocupado em outros afazeres." Na Regra do Carmelo, dada entre 1206 e 1219 por S. Alberto, patriarca de Jerusalém, este é o parágrafo central. Alberto foi, por volta daqueles anos, o pólo de um grupo de eremitas que se reuniram no Monte Carmelo, na Terra Santa. Decorriam as cruzadas e um conjunto de eremitas buscaram naquele monte uma vida de solidão e oração inspirada no exemplo do profeta Elias, dos tempos judaicos.

Da localização geográfica herdou a ordem o seu nome tradicional. As primeiras notícias da presença eremítica no Carmelo datam ainda de 1155. Depois da regra e da sua aprovação por Roma, a ordem conhece uma importante expansão na Terra Santa e na Síria. Mas a derrota dos cruzados traz consigo a dispersão dos carmelitas e o seu desaparecimento da Palestina e nas regiões do Médio

Oriente.

Dá-se, então, o salto para a Europa. Depois de vicissitudes e mudanças diversas, a ordem conhecerá um momento fundamental de viragem já em pleno século XVI, com a reforma empreendida por Teresa díÁvila, e quando a Igreja acabava de viver o Concílio de Trento, com os apelos permanentes a uma reforma profunda do catolicismo. "Pensava que podia fazer por Deus e pensei que a primeira coisa era seguir o chamamento (...) guardando a minha regra com a maior perfeição que pudesse." Queria Teresa ser monja à maneira dos antigos eremitas do Monte Carmelo. "Só Deus basta", proclamava, não sem oposições, a futura doutora da Igreja.

Em 1977, depois do Concílio Vaticano II e da aprovação das novas constituições carmelitanas, um grupo de monjas, liderado pela espanhola madre Maravillas opõe-se à mudança, alegando que ela não era fiel a Santa Teresa. Roma acabou por tolerar que cerca de dez por cento dos conventos e das carmelitas

tivessem um estatuto especial, que mantém muitas das normas consideradas ultrapassadas. Foi uma espécie de "bofetada espiritual", como definiu na altura o provincial dos carmelitas em Espanha.

A.M.


JORNAL DO BRASIL - Domingo, 7 de Abril de 1996

CONVERSA

CLÁUDIO HENRIQUE

Neste fim de Semana Santa, Domingo não poderia vir mais imaculada. Só faltou pôr um daqueles véus transparentes cobrindo a bela capa desta edição de Páscoa – feita pelo artista plástico Guilherme Secchin especialmente para a reportagem Quem será o primeiro santo brasileiro?. O Brasil tem vários processos de canonização no Vaticano e, Edir Macedo queira ou não queira, caminhamos a passos largos para provar que milagre brasileiro não foi apenas uma balela dos anos 70. Padre Anchieta e Madre Paulina já são beatos (espécie de pré-santo) mas, como um nasceu em Portugal e a outra na Itália, sairá de outros candidatos o primeiro santo com nacionalidade brasileira. Entre eles, uma carioca de perfil curioso: Madre Maria José de Jesus. Filha de Capistrano de Abreu, Maria foi socialite e badalava no jet- set do início do século. Um dia, abandonou tudo e foi viver em clausura. O espanto que causou na sociedade pode ser comparado com o que sentiríamos hoje em dia ao saber que Aléxia Deschamps, Fernandinha Barbosa ou Adriana Mattoso – o trio ternura da noite carioca (pág. 16) – abandonou as noitadas por um quartinho num convento de Santa Tereza. Sem espelho ou penteadeira. Por falar em beleza, a namorada boazinha do Dinho dos Mamonas, Valéria Zoppello, preferiu não se esconder do mundo após a tragédia que viveu. Aceitou o nosso convite e está brilhando na reportagem de moda. Vaidade não é pecado.


JORNAL DO BRASIL - Domingo, 7 de Abril de 1996

Brasil de todos os santos

CILENE GUEDES

Somos o país do futebol; conquistamos quatro Copas do Mundo. Somos a terra do samba; transformamos o carnaval na maior festa popular do planeta. Com os pés no chão, ninguém segura o Brasil. Mas acima das nuvens... A impressão é que Deus não é tão brasileiro. A maior nação católica do mundo nunca canonizou um santo sequer. Equador, Chile, México e outros países menos expressivos para o cristianismo têm santos. Setenta por cento dos 160 milhões de brasileiros se dizem católicos e nada de um santo verde-amarelo em quase 500 anos de história. Nem o fato de João Paulo II ser o papa recordista em canonizações favoreceu o país. O Brasil continua sem representantes nos altares católicos do mundo.

Das 1.200 investigações em curso na Congregação para a Causa dos Santos, no Vaticano, de 25 a 30 processos tratam da história de brasileiros ou religiosos que tenham se dedicado ao país. Nem as mais altas representações da Igreja brasileira, nem a Congregação – uma das poucas da Curia Romana da qual não faz parte um bispo ou cardeal brasileiro – sabem o número exato desses processos. Mas a riqueza dos perfis pode ser atestada pela relação entre a vida dos religiosos brasileiros mais venerados e períodos da história do país: o jesuíta Anchieta e sua obra de catequização dos índios é o retrato dos anos que se seguiram logo após o descobrimento; Madre Paulina de Jesus descreveria com fidelidade a vida dos imigrantes europeus que chegaram ao sul do país no século passado; e Madre Maria José de Jesus, a moça da sociedade convertida em carmelita, é a cara da efervescência carioca na virada do século.

Esses casos e de outros candidatos a santos brasileiros estão sob investigação no Vaticano (conheça a vida dos religiosos mais importantes nas próximas páginas), presos a um processo de canonização ao estilo via-crúcis: penoso e demorado. Primeiro é preciso que, no mínimo cinco anos após a morte de alguém que tenha tido em vida a fama de santidade, a diocese local abra uma espécie de julgamento, o Tribunal Diocesano, com direito a advogado de defesa (postulador), juiz (bispo), promotor e um réu – que, obviamente, não cometeu qualquer crime. Uma biografia rigorosa e tudo o que o religioso tiver escrito em vida deve passar pelo crivo de teólogos e do tribunal, que também ouve testemunhos de pessoas que tenham convivido com o venerável. Se ultrapassar esta etapa e o trabalho do tribunal for reconhecido pela Congregação para a Causa dos Santos, o candidato recebe o título de servo de Deus.

As etapas posteriores do processo ocorrem no Vaticano. Toda a documentação do Tribunal Diocesano é novamente examinada. Teólogos debruçam-se sobre o material em busca de atitudes ou declarações controversas que inviabilizem o processo. Se a vida do servo de Deus for considerada irrepreensível, falta ainda comprovar dois milagres atribuídos a ele. O primeiro garante o título de beato (o Brasil tem dois: Padre Anchieta e Madre Paulina), aquele que pode ser venerado apenas no país em que viveu. Para a canonização – título de santo e permissão para o uso de sua imagem em qualquer altar do mundo – é preciso comprovar um segundo milagre, ocorrido após a beatificação. Seguindo estas regras, Madre Paulina estaria bem próxima de se tornar santa. O Vaticano não confirma, mas um segundo milagre de Paulina já teria sido considerado válido para a canonização.

Como, por enquanto, são apenas rumores, o Brasil segue aguardando seu primeiro santo. O cardeal primaz do Brasil e arcebispo de Salvador, Dom Lucas Moreira Neves, reconhece que a canonização de um brasileiro "é importante porque serve de modelo para os fiéis". ''O próprio papa João Paulo II já perguntou porque não há mais esforço pela apresentação de pessoas santas do Brasil", diz o cardeal arcebispo metropolitano de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns. Ainda mais quando, todos são levados a pensar, a canonização poderia ser uma vitória importante para os católicos brasileiros nestes tempos de expansão das religiões evangélicas. Mas não é bem assim que pensa a cúpula da Igreja Católica: "Seria uma faca de dois gumes. A canonização de um brasileiro seria importante para os católicos, mas na verdade acirraria os ânimos dos evangélicos", diz o arcebispo de João Pessoa e um dos diretores da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Marcelo Carvalheira. A veneração dos santos foi uma das discordâncias teológicas que desencadearam a Reforma, e a igreja não estaria interessada em fornecer mais combustível para polêmicas. ''Até porque, em rigor, a Igreja Católica não se interessa por fazer santos. Temos uma proclamação fundamental de que só Deus é santo. Multiplicar semideuses e salvadores seria uma heresia. Quando se canoniza alguém, a intenção é enaltecer a eficácia da santidade de Jesus", complementa dom Marcelo.

Enaltecer a eficácia da santidade de Jesus parece ser uma das prioridades do papa. Até o mês passado, em 18 anos de pontificado, João Paulo II beatificou 736 pessoas e canonizou 273. Antes dele, os papas que mais beatificaram e canonizaram foram Pio XI (11 beatos e 26 santos entre 1922 e 1939); Pio XII (23 beatos e 36 santos de 1939 a 1958) e Paulo VI (31 beatos e 21 santos entre 1963 e 1978).

Mas por que então o Brasil não consegue ter seu primeiro santo? No Vaticano, fala-se de biografias imparciais e desorganização do material remetido para a Congregação para a Causa dos Santos. Um dos processos, o do Padre Vitor, de Minas, teria sido devolvido por este motivo. Sem contar a falta de recursos. Prelados norte-americanos sustentam que, com menos de US$ 250 mil, não se faz um beato. Em Roma, depois de muita insistência, alguns postuladores calcularam para a Domingo que uma beatificação pode chegar a US$ 150 mil. Dinheiro gasto na preparação e envio de escritos e nas muitas viagens de investigadores para interrogatórios. Mais: é recomendável sustentar um postulador no Vaticano enquanto as investigações persistirem.

O trabalho feito pela Arquidiocese do Rio no caso da carmelita Maria José de Jesus durou dois anos e meio, metade do tempo esperado, e mereceu elogios do Vaticano. As carmelitas do Convento de Santa Teresa guardam a sete chaves um documento do postulante geral da ordem, frei Simeão da Sagrada Família, parabenizando pelo bom andamento do processo. No momento, o Vaticano espera que a Ordem das Carmelitas Descalças envie dois estudiosos do Brasil para trabalhar no caso. "Não há falhas no processo. Só não estamos conseguindo pessoas que se disponham a passar dois ou três anos no Vaticano", diz o vice-postulador da causa, frei Patrício Sciadini, que vive em São Roque (SP).

Dom Marcelo Carvalheira foi quem pediu a abertura do processo de canonização do padre Ibiapina e, na época, início da década de 90, chegou a propor a criação do cargo de Postulador-Geral das Causas Brasileiras. A proposta caiu no vazio, e as causas continuam movidas por iniciativas isoladas de ordens e congregações, sem qualquer controle ou interferência da CNBB. E os católicos continuam torcendo pelo dia em que Deus, que nos acostumamos a chamar de brasileiro, terá no céu um santo conterrâneo. (* Colaboraram Araújo Netto, de Roma, e Márcia Gomes, de Salvador)

Madre Maria José

No efervescente Rio do início do século, Honorina de Abreu nunca passou despercebida. "A moça mais elegante que já passou pela Rua do Ouvidor", como se dizia na época, era uma socialite esclarecida, inteligente, amante das letras. Agora, às portas de outra virada de século, sua fama resiste, mas por motivos opostos. Única carioca na lista dos candidatos à canonização, Honorina, ou Madre Maria José de Jesus, é uma das brasileiras mais próximas de conquistar os altares do mundo. Ninguém jamais soube por que, mas, aos 20 anos, a moça rompeu com o jet set – em meio a um baile – para, nove anos depois, entrar para a Ordem das Carmelitas Descalças, que vivem confinadas em mosteiros.

Madre Maria José nasceu Honorina em 18 de fevereiro de 1882, mais velha dos cinco filhos de Capistrano de Abreu, um dos mais importantes historiadores do Brasil. Ateu, o pai via em sua entrada para o convento um desperdício de talento literário (ela escrevia poesias desde criança). Capistrano viu a filha pela última vez quando, vestida de noiva, ela entrou para o Carmelo de Santa Teresa. Nunca quis visitá-la. A ausência do pai foi suprida pelo trabalho no convento. Tanto trabalho que, seis anos depois de adotar o hábito, era eleita madre priora. Com o tempo, a força de sua personalidade atravessou as grades do Carmelo, sem que ela saísse do lugar. Tornou-se uma das figuras mais influentes da Igreja à época. ''Dom Leme, então cardeal do Rio, chegou a dizer que não tomava uma decisão importante sem consultá-la", conta o historiador Dante Gallian, que prepara uma tese sobre a vida da madre.

Foi eleita nove vezes para chefiar o Carmelo _ o mais antigo do Brasil. Dedicou boa parte de seu tempo à tradução das obras completas de Santa Teresa de Jesus, mãe das carmelitas descalças, e de todo o cerimonial da ordem, a que as freiras brasileiras até então não tinham acesso. Hoje, no Carmelo, visitantes podem ver seus pertences em um ambiente que reproduz a cela em que vivia. Ao contrário das outras freiras, seu túmulo tem identificação e retrato. Há santinhos, livros, traduções e uma biografia à venda por preços simbólicos.

Depois de sua morte, em 59, mais de quatro mil cartas chegaram ao convento, de todos os cantos do mundo, com relatos de graças atribuídas a Madre Maria José. Das 13 carmelitas que estão hoje em Santa Teresa, apenas três conviveram com ela. E por amor à madre, uma delas interrompeu o isolamento. Falando por trás das grades, irmã Maria Aparecida de São José, 71 anos, lembrou a paz inexplicável que todas as freiras sentiam perto da priora. ''Ela tem grande aceitação junto a intelectuais", descreve irmã Verônica, 41 anos, estudiosa da biografia da madre. A origem desta ligação com a intelectualidade talvez venha da amizade com Manuel Bandeira. "A madre pediu a uma freira que chamasse o poeta ao convento, porque queria explicações sobre 'esse tal verso livre''', conta Gallian. Sobre a morte da madre, Bandeira escreveu: Perdi uma amiga na Terra; ganhei uma amiga no céu: morreu na semana passada, Madre Maria José de Jesus. Era uma santa. Maria José morreu aos 77 anos de uma síncope cardíaca. Só em 1989 o processo foi aberto. Em 1993, os 15 volumes de investigações foram aceitos no Vaticano, onde aguardam estudos.

Padre Ibiapina

Uma vida voltada para os pobres mantém firme, desde o século passado, a gratidão de devotos em todo o Nordeste ao cearense José Antônio Maria Ibiapina. Ele já havia sido até deputado quando, aos 46 anos, largou o Direito após perder duas causas em que defendia menos favorecidos. Passou três anos isolado, em casa, no Recife, como se estivesse se penitenciando pelas distorções da sociedade. O próprio bispo de Olinda o convidou a ser ordenado e antevia para Ibiapina uma rápida ascensão. Deixou tudo para tornar-se missionário nos sertões. Até morrer, em 1883, aos 76 anos, percorreu Piauí, Ceará, Paraíba e Pernambuco. Tudo a cavalo, ou a pé. Fundou hospitais, organizou dezenas de mutirões para construção de açudes e criou 22 casas de caridade para acolher órfãos. O papa já mostrou-se favorável à causa. "Eu vou fazer a minha parte, mas é preciso que Ibiapina faça a dele", disse João Paulo II a dom Marcelo Carvalheira, que abriu a causa de canonização. Os relatos de graças recebidas já se amontoam aos milhares. Enquanto o milagre não vem, as mais de mil folhas que contam sua biografia completam um ano e meio de análise em Roma.

Frei Galvão

Frei Antônio de Sant'Ana Galvão sempre fez o possível para ajudar os outros. E o impossível também. Comovido pela dor de um rapaz com crise de vesícula, Frei Galvão escreveu uma frase em louvor à Virgem Maria em um pedaço de papel, dobrou- o bem e deu ao rapaz para que engolisse. Instantes depois, ele estava livre dos cálculos. A receita funcionaria até hoje. Todo dia 23 de março, aniversário de morte do frei, uma multidão recorre ao Mosteiro da Luz, em São Paulo, em busca dos papeizinhos. Durante o ano, a procura continua. As graças são relatadas nas 15 cartas remetidas diariamente ao mosteiro. Paulista de Guaratinguetá, Galvão entrou para a Ordem dos Franciscanos Menores aos 21 anos, em 1760. Em 1774, fundou o Mosteiro da Luz, após uma visão mística de uma freira. Morreu em 1822, já com fama de santo. O arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, pediu a abertura do processo de canonização em 1990. "Está em boas condições para provável beatificação", diz. O mosteiro e a Arquidiocese de São Paulo fazem segredo sobre que milagre está sendo analisado para Frei Galvão obter a beatificação, o que pode ocorrer durante a provável visita do papa ao Brasil em 1997.

Madre Paulina

Em setembro de 1965, duas freiras aproximaram-se do leito de uma mulher à beira da morte e fizeram um último gesto antes de recomendar a extrema-unção. Encostaram em seu corpo um pedaço de roupa que pertenceu à madre fundadora da sua congregação e rezaram. Os médicos do Hospital São Camilo, em Imbituba, Santa Catarina, não conseguiram explicar a recuperação que se seguiu. Um deles testemunharia mais tarde que "um ser superior a curou. O que fizemos não foi suficiente para salvar-lhe a vida".

O processo de canonização começaria em São Paulo, ainda naquele ano. O Vaticano reconheceu a graça inexplicável em julho de 1989. Em outubro de 1991, João Paulo II presidiu, em Florianópolis, a cerimônia de beatificação. Assim, a Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, com sede em São Paulo, viu a madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus tornar-se a segunda beata do Brasil _ o primeiro foi Anchieta, beatificado em 1980. Hoje, é considerado o processo brasileiro mais próximo da canonização. O Vaticano já analisa um segundo caso, talvez o milagre que lhe abra as portas dos altares em todo o mundo.

"Uma menina de Rio Branco, no Acre, nasceu com uma deformação craniana. Estava desenganada pelos médicos. Seus pais fizeram a oração de Madre Paulina e a menina ficou curada", conta a atual madre superiora da congregação, Ilze Mees. O caso ocorreu em 1992, ano seguinte à beatificação. "Ainda não fomos comunicados oficialmente, mas ela deve ser canonizada na próxima visita do papa ao Brasil", revelou um clérigo paulista.

Madre Paulina, que viveu entre 1865 e 1942, não chegou a ter a nacionalidade brasileira, embora tenha vivido aqui 68 anos. Nasceu na Itália e veio para o Brasil aos nove anos, com a família. Seus pais eram agricultores e instalaram-se em Santa Catarina. Perdeu a mãe aos 25 anos, e depois disso resolveu criar a Congregação das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, em Nova Trento (SC). Em 1903, a congregação foi transferida para São Paulo. Seu túmulo, no bairro do Ipiranga, é um local de veneração muito procurado.

Padre Anchieta

Primeiro beato do Brasil, o padre jesuíta José de Anchieta foi, por muito tempo, o que o país teve de mais parecido com um santo. Nos livros de História do Brasil, muitas gerações se acostumaram a estudar a figura aparentemente dócil, que escrevia poemas nas areias do litoral paulista quando mal tinha sido descoberta esta terra. Como beato, sua veneração, autorizada em 1980, por enquanto deve ficar restrita aos países em que viveu: Brasil, Portugal e Espanha.

Filho de um nobre, Anchieta nasceu na ilha espanhola de Tenerife. Aos 17 anos, entrou para a Companhia de Jesus, em Coimbra, Portugal. Aos 19 já estava no Brasil, onde viveria por mais 44 anos em meio aos índios, no litoral Paulista. Elaborou a primeira gramática da língua tupi, escreveu várias peças e poemas, tudo na tentativa de facilitar a catequese. Morreu em 1597, aos 63 anos.

Os jesuítas pediram a abertura de seu processo de canonização em 1602, apenas cinco anos após sua morte. Mas a velocidade da Companhia de Jesus adiantou pouco. Várias interrupções tornaram a beatificação de Anchieta uma das decisões mais aguardadas da história da igreja. Foram 378 anos de demora, com pausas de mais de 100 anos no andamento do processo. A primeira viria logo em 1634, quando o papa Urbano VIII proibiu a abertura de causas de canonização antes que se completassem 50 anos da morte do candidato. A idéia seria verificar o quão duradouro seria a veneração popular. Vencido o prazo, viria o envolvimento de Portugal em guerras, a expulsão da Companhia de Jesus do Brasil em 1760, pelo Marquês de Pombal, e a própria extinção da ordem em 1773. Em 1814, a Companhia ressurgiu. Voltou a atuar no Brasil 27 anos depois, quando as discussões sobre Anchieta recomeçaram. A partir do final do século passado, as pressões aumentariam. E o Vaticano só cedeu em 1980. Há quem diga que entre a beatificação e a canonização podem correr mais 400 anos. Apesar das graças atribuídas a Anchieta – entre as quais a cura de um aleijado que sentou-se sobre seu túmulo –, o papa resistiria a canonizá-lo para evitar polêmicas, já que os historiadores vêem sua figura menos como um instrumento de Deus, mais como uma ferramenta para aculturação dos índios.

Padre Eutáquio

O pároco que dá nome a um enorme bairro na capital mineira, muito antes de morrer, em 1943, já era tido como santo. Holandês, Eustáquio Van Lieshout chegou ao Brasil nos anos 20 e logo conquistou o povo da vila de Água Suja, no Triângulo Mineiro, onde instalou a primeira casa da congregação Sagrados Corações de Jesus e Maria. Mesmo sob protestos da população de Água Suja, foi transferido para Poá, interior de São Paulo. Lá, construiu uma gruta semelhante à de Lourdes, na França, onde colocou água benta que havia trazido da original. Não demorou muito para que surgissem depoimentos de que a água curava. Na década de 40, a procura pelo padre era tão grande que a Igreja o transferiu para Belo Horizonte _ o que provocou alvoroço, pois a fama de suas bençãos já era grande. Foi obrigado a criar horários pré-determinados para atender fiéis, que, por ordens superiores, só ouvia no confessionário. Devotos contam que quando adoeceu, Eustáquio já havia previsto sua morte _ em 30 de agosto de 43. O processo de canonização foi aberto em 56 e hoje há um movimento na paróquia por sua consolidação. (Roselena Nicolau, de BH)

Padre Vitor

Francisco Paulo Vítor, o primeiro negro a ser ordenado padre no Brasil, foi pároco por 58 anos em Três Pontas (Sul de Minas), onde morreu em 1905. No velório, seu corpo ficou exposto por três dias e, contaram as testemunhas, o único cheiro que exalava era o de perfume. Padre Vítor nasceu em 12 de abril de 1827, filho de uma escrava. Viveu na cidade de Campanha até que o bispo de Mariana, dom Antônio Ferreira de Viçoso, resolveu protegê-lo, levando-o para o seminário daquela cidade, onde foi ordenado em 1851. Sua fama de educador – fundou um dos mais prestigiados colégios da região – e caridoso espalhou-se. Dos fazendeiros, conseguia di- nheiro que sempre distribuía aos pobres, sem se preocupar com as contas da paróquia. As dívidas se avolumavam e Vítor chegou a ser repreendido por seu protetor. Ao morrer, já era tão conhecido que foi impossível enterrá-lo no dia da morte. Não há milagres registrados em vida, mas as freiras do Carmelo de São José anotam centenas de graças atribuídas ao velho pároco. Todo dia 23 de setembro, Três Pontas pára e venera o padre. Seu processo chegou a ser devolvido mas está novamente no Vaticano.

Os Santos Informais

Ignorados pela igreja católica, canonizados informalmente pelo povo. Até a TV prestou, a seu modo, culto a Padre Cícero e escrava Anastácia (os dois tiveram suas histórias transformadas em minissérie), santos excluídos dos altares oficiais, mas a quem se atribui milagres aos borbotões. Ai de quem diga em Juazeiro, no Ceará, que o padim não merece um lugar de destaque no céu. Cícero Romão Batista nasceu em Crato, em 1844, mas exerceu todo o sacerdócio na cidade que, até hoje, conserva uma estátua em sua homenagem. Morreu aos 90 anos, suspenso pela igreja, mas sem abandonar os votos, a batina ou o chapéu. Cícero foi excluído porque a igreja desconfiou do fenômeno de transformação da hóstia em sangue, quando oferecida as suas beatas. O milagre repetiu-se várias vezes. O apoio de padre Cícero a Antônio Conselheiro também foi mal visto. Mas biografias controversas não abalam a fé dos devotos. Não faz diferença, por exemplo, o fato de a igreja duvidar que Anastácia tenha existido. A falta de documentos emperra qualquer tentativa de abrir um processo de canonização, por mais que se atribuam milagres à escrava. Anastácia teria morrido em 1838, aos 25 anos, depois que um instrumento de tortura colocado em sua boca causou gangrena. No fim do século passado, começaram a surgir relatos de aparições e milagres, especialmente dirigidos a pobres.

Padre Reus

Pagar promessas para Padre Reus se tornou uma prática comum entre os gaúchos. A mais freqüente é a de caminhar até seu túmulo em São Leopoldo, como fizeram jogadores do Grêmio em 1983 e 1995, na conquista da Libertadores da América. A massa de devotos impressiona tanto como o número de publicações a seu respeito. Até 1994 foram editados 5 milhões e 100 mil folhetos (40 edições) de duas páginas com a estampa do Padre Reus e a novena; 3 milhões e 710 mil folhetos (34 edições) de seis páginas; e 3 milhões e 10 mil (28 edições) de folhetos com a estampa do padre quando jovem e a novena. Seu processo de beatificação, iniciado em 1953, sofreu uma pausa em 74. Em parte devido à resistência do cardeal Vicente Scherer, que enviou uma carta ao Papa Paulo VI desaconselhando a santificação. Mais tarde, dom Vicente mudou de idéia e acabou apoiando a carta que 26 bispos gaúchos escreveram em 1993, pedindo pela beatificação de Reus. Mensalmente, os postuladores da causa no Brasil recebem cerca de 150 cartas com relatos de graças e milagres alcançados.

Nascido em 1868 na aldeia de Pottenstein, na Alemanha, João Baptista Reus chegou ao Brasil em 1900. Já era padre jesuíta. Desembarcou no Porto de Rio Grande (RS), onde permaneceu até 1911. Fundou a Liga Operária Católica, que reunia os trabalhadores por motivos religiosos e os ajudava a enfrentar problemas pessoais. Depois veio para Porto Alegre e foi vigário da Paróquia da Conceição, em São Leopoldo, em 1913. A partir de 1914, e até sua morte em 1947, foi diretor e conselheiro espiritual no Seminário Maior de São Leopoldo e do Colégio Cristo Rei. Em 1997, no cinqüentenário da morte do padre, o jesuíta Luiz Marobin vai editar um perfil, com base em oito volumes de um diário que Reus escreveu entre 1937 e 1947 e três volumes de uma autobiografia. O diário relata vários momentos de êxtase e revelações divinas, como a de que seria canonizado. (José Mitchell, de Porto Alegre)


FOLHA DE SÃO PAULO - Domingo, 7 de Abril de 1996 - Internacional

Aumentar preços, dar cheque sem fundo e dirigir embriagado são faltas graves, diz o novo catecismo

Igreja revisa e amplia Dez Mandamentos

da Reportagem Local

O leque dos pecados é bem mais vasto do que permite supor as regras estabelecidas por Moisés, ao lançar a tábua dos Dez Mandamentos sobre o bezerro de ouro.
A lista dos novos pecados inclui, por exemplo, especulação financeira e imobiliária, aumento dos preços, cheques sem fundo, devastação da natureza, horóscopos, fofocas e até dirigir embriagado.
Segundo o novo Catecismo da Igreja Católica, aprovado em 1992 pelo papa João Paulo 2ª, essas são transgressões graves que podem levar o autor ao inferno.
No novo catecismo, os pecados modernos aparecem na parte dedicada a cada um dos Dez Mandamentos. No primeiro -"Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração..."- são condenados satanismo, adivinhação, previsão do futuro e a consulta aos horóscopos e à astrologia.
No terceiro mandamento -"Guardarás o domingo"-, o catecismo condena o excesso de trabalho. As pessoas que tiverem de trabalhar aos domingos -nos restaurantes, esportes, serviços públicos...- "assumirão a responsabilidade de encontrar um tempo suficiente de lazer".
O quinto mandamento -"Não matarás"- amplia a idéia de homicídio para manobras comerciais que possam levar à morte de pessoas e responsabiliza a sociedade que aceita condições de miséria que levem à morte.
No sexto -"Não cometerás adultério"-, a Igreja condena a masturbação e a pornografia e desaprova o homossexualismo. O texto diz que os homossexuais -"aqueles com tendências inatas"- devem praticar a castidade.
O sétimo mandamento -"Não roubarás"- amplia a idéia de roubo para as relações sociais dominadas por fatores econômicos.
O mesmo mandamento condena a quebra dos contratos livremente estabelecidos, o que vale para dívidas assumidas e os cheques passados. Exige salário justo -mesmo que o trabalhador tenha concordado em ganhar menos- e considera a greve como "moralmente legítima, quando se apresenta como recurso inevitável e necessário".
O falso testemunho, condenado no oitavo mandamento, inclui a maledicência -ou a fofoca-, que revela a terceiros "os defeitos e faltas dos outros". Também são condenadas a bajulação e a adulação.
O décimo mandamento -"Não cobiçarás coisa alguma..."- condena os "comerciantes que desejam a carestia" e aqueles que querem a miséria dos outros para tirarem lucro. Condena também os "médicos que desejam as doenças". (AURELIANO BIANCARELLI)


FOLHA DE SÃO PAULO - Domingo, 7 de Abril de 1996 - Internacional

Páscoa tem mais confissão

da Reportagem Local

A Páscoa é a época em que um maior número de pessoas procura as igrejas para se confessar.
Isso acontece porque a quaresma -o período de 40 dias que vai do Carnaval ao domingo após a Sexta-feira Santa- é vista pelos cristãos como uma fase de reflexão e de reconciliação com Deus. O sacramento da confissão diz que todo cristão deve se confessar ao menos ao vez por ano pela Páscoa.
Páscoa significa "passagem" em hebraico. Para os cristãos, a data comemora a ressurreição de Jesus.
No antigo testamento, foi a passagem pelo mar Vermelho, quando os judeus se libertaram e fugiram do Egito. No novo testamento, a Páscoa celebra a passagem da morte para a vida.
Segundo o frei e professor Carlos Josephat de Oliveira, se Jesus Cristo não tivesse ressuscitado, teria sido uma vitória da morte sobre a vida. "Sua ressureição foi uma vitória do amor que combate o pecado do mundo. A Páscoa celebra essa vitória."
Segundo frei Oliveira, a procura pela confissão caiu bruscamente 20 anos atrás, estabilizando-se nos anos 90.


FOLHA DE SÃO PAULO - Domingo, 7 de Abril de 1996 - Internacional

Pecados são válidos hoje

da Reportagem Local

O advogado criminalista Waldir Troncoso Peres, 72, acredita que os pecados capitais definidos pela Igreja Católica na Idade Média continuam válidos até hoje.
"Os princípios contidos neles podem perfeitamente ser aplicados aos dias atuais. É apenas uma questão de interpretação", diz.
Ele exemplifica: a gula não deve ser vista apenas como desejo de comer muito, mas como vontade de se apoderar do máximo.
"Contribuir para a injustiça social deve ser visto como uma forma de gula", conclui. Para o criminalista, a discriminação racial seria um desdobramento da ira e assim por diante.
O criminalista, que é católico e vai à igreja "com frequência", admite que o poder de coerção do pecado diminuiu. "Antigamente, o próprio cidadão se vigiava e, quando pecava, se recriminava. Hoje, há uma elasticidade moral maior."


PÚBLICO - Domingo, 7 de Abril de 1996 - Sociedade

Nas cidades, o compasso tradicional convive com novas formas de celebrar a ressurreição

Para quem abrir a porta

Bárbara Simões

Uns sobem os elevadores dos prédios para dar a cruz a beijar nos apartamentos dos paroquianos, outros recolhem dinheiro para ajudar crianças com sida. Nas cidades, a Páscoa é hoje celebrada de maneiras diferentes. Ditam-nas a perspectiva de cada um dos padres católicos e as características da comunidade que têm a seu cargo. Mas há uma coisa que todos notam: as pessoas querem respostas para o "vazio de valores, de sentimentos, de amor, de segurança e de futuro que se criou". E pedem sinais de "esperança, fé e transcendência".

A um mês de completar 78 anos de idade, o pároco da Afurada, Joaquim de Araújo, prepara-se agora para voltar a uns prédios de muitos andares que já conhece de anos anteriores e a cujos elevadores não poupa elogios. Amanhã, será ele a acompanhar o compasso pascal aos Jardins da Arrábida, uma urbanização na parte mais alta e urbana desta paróquia - essencialmente piscatória - da cidade de Gaia. O ritual não tem nada que saber: o grupo que acompanha o padre Joaquim sobe ao último andar de cada prédio e faz soar uma pequena sineta no átrio. "Quem abrir a porta, recebe compasso. Se não abrirem, também não vamos lá chatear a tocar". De piso em piso, o compasso desce até ao rés-do-chão e passa ao prédio seguinte.

Em baixo, na margem do Douro, na zona ribeirinha da Afurada, circularão mais duas cruzes pelas casas dos pescadores. São sempre bem recebidas e por muitas famílias - aqui, as pessoas ausentam-se menos nestes dias do que os vizinhos das torres altas dos Jardins da Arrábida. O pároco nota que, na rua, já ninguém se mete com os leigos que vão de opa, e é frequente aparecer quem peça para beijar a cruz ali mesmo, fora de casa. Tudo como o padre Joaquim estava habituado a ver há muito tempo atrás. "A única diferença que noto é a oferta que fazem para o sustento do pároco. Com a inflação, o folar é hoje muito maior".

Mais do que nas povoações de menor dimensão, onde - com maior ou menor convicção - as pessoas continuam a receber em casa o compasso e o grupo que a ele se vai juntando ao longo das ruas, é nas cidades que a Igreja Católica sente com especial premência a necessidade de reflectir acerca da maneira mais conveniente e eficaz de assinalar a morte e ressurreição de Cristo. É verdade que o compasso sai hoje mais à rua do que há meia-dúzia de anos? Mas será que o ritual tem futuro, em cidades onde as casas de piso térreo são cada vez mais raras e onde já é natural os vizinhos não se conhecerem? Serão estes os sinais que os crentes reclamam? Qual é a alternativa?

As paróquias respondem a estas perguntas de forma diferente, conforme o PÚBLICO constatou numa auscultação efectuada no Porto e em Gaia. A opção é ditada, em grande parte, pelas características da área e dos fiéis que cada sacerdote tem a seu cargo. Em comum há a registar - unindo os habitantes das zonas pobres e mais populares com os das finas e abastadas - "a necessidade de procurar uma resposta para este vazio de valores, de sentimentos, de amor, de segurança e de futuro que se criou", como diz o padre Agostinho Jardim, pároco de São Nicolau e da Vitória, no centro histórico portuense.

A área de que o padre Jardim se ocupa é precisamente uma das que mais trazem para a rua as celebrações pascais, da via-sacra ao compasso. "São Nicolau é uma zona de "imigrantes", que vieram da aldeia para aqui e que sempre que podem aproveitam esta altura para ir passar a Páscoa com a família. Mas os praticantes que ficam querem receber a cruz em casa. Nós informamos que vamos e pedimos que nos digam se nos querem receber, para sabermos a que portas havemos de tocar. Mas depois, no dia, os que se esqueceram ou não quiseram comunicar, vêm para a porta e pedem: "Venha também aqui, venha aqui"". Na Vitória, "há um ambiente mais de bairro, as coisas funcionam com mais vivacidade e emoção".

No domingo, cada uma destas paróquias é percorrida por seis equipas de leigos com a cruz. O padre Jardim acompanha uma em cada ano. "Ao fim de seis anos, corro todas as freguesias", diz. E não lhe parece provável que tão depressa lhe vá faltar que fazer. "Não sei, mas a sociedade carece de símbolos e de sinais de esperança, de fé, de transcendência. As pessoas aderem a tudo o que seja simbologia de valores. Em 75 ou 80, não tinha quem me pegasse numa opa. Agora, são cobiçadas. Todos as querem".

Um pano roxo que cobre a cruz alta

Quem tiver contornado ultimamente a Praça do Marquês de Pombal, no Porto, reparou com certeza no pano roxo que cobre a cruz alta, à porta da igreja. Está lá desde o primeiro dia da Quaresma, mais uns troncos queimados e uma vasilha com cinzas. Mas porque às cinzas se seguem as cores da renovação, os paroquianos foram esta semana convidados a levar vasos com flores (a meio da semana já lá estavam umas azáleas), que agora ficarão na escadaria e depois passarão para os jardins à volta da igreja. Amanhã, o pano roxo da cruz será substituído por uma coroa de louros, sinal de vitória e certeza "de que a cruz venceu os males do mundo", explica o padre Carlos Azevedo, há dois anos à frente desta paróquia da Senhora da Conceição.

O sacerdote é um dos que pensam que é preciso encontrar novas formas de celebração da Páscoa, "mais relacionadas com a cidade" do que o velho compasso. Está, aliás, convencido de que é mais por "nostalgia da mocidade" que algumas pessoas aceitam tão bem o compasso, ritual de cuja "eficácia pastoral" duvida. Numa zona central, onde muita gente vai para fora nesta altura, o padre Carlos Azevedo decidiu fazer celebrações nos sábados que se seguem à Páscoa, para que as pessoas se conheçam e se encontrem. E tentou animar o mais possível as celebrações mais convencionais, para que pareçam convidativas aos que ficam no Porto no fim-de-semana. Um bailado, na igreja, no fim da vigília pascal de hoje à noite, é disso exemplo.

Também na Pasteleira, uma paróquia dirigida pelo padre José Lopes Baptista, se procurou "afirmar uma maneira diferente de fazer o compasso". Em vez das opas e da cruz, o que sai à rua no domingo são dois ou três discretos grupos em visita às casas dos doentes e idosos impossibilitados de ir à igreja. Ontem, os paroquianos reuniram-se numa refeição de pão e água e entregaram o dinheiro correspondente a um jantar normal, depois de deduzido o custo do pão. Este dinheiro, somado ao produto das renúncias quaresmais (em que a pessoa deixa de fazer uma coisa em que tinha pensado - ir ao cinema, por exemplo -, e põe de parte o dinheiro que isso lhe custaria), reverte este ano para uma instituição que trabalha com bebés com sida.

É exactamente por aqui, pelo lado da "maior fragilidade", que o presbítero da comunidade da Serra do Pilar, Arlindo Magalhães, gostaria que a fraternidade entrasse sempre. "É no coração deste mundo - que cada vez liga menos ao simbólico mas que cada vez mais procura o simbólico, que enfrenta os medos atávicos da sida e do desemprego, onde as pessoas se sentem sós, repelidas e afectivamente ressequidas - que é preciso arrancar e semear vida nova".

A questão da simbólica religiosa,"é uma grande questão, mas neste domínio os cristãos não criaram nada de novo", diz Arlindo Magalhães. "O desafio, hoje, é sermos capazes de arrancar da nossa cultura moderna ritos e símbolos que celebrem de maneira diferente o que os nossos antepassados celebravam com ritos pastoris. É preciso criar comunhão entre as pessoas, mas não é com opas nem com cruzes na rua". A mudança, a dar-se, será lenta. "A Igreja é um grande paquiderme - para mexer uma pata tem de pedir licença às outras três. Isto leva tempo".>


JORNAL DO BRASIL - Domingo, 7 de Abril de 1996

Carismáticos e evangélicos, almas gêmeas

Pesquisa da CNBB mostra que fiéis dos
dois credos têm perfil semelhante e encaram
religião como alento para seus infortúnios

ALEXANDRE MEDEIROS

Os padres que nos perdoem, mas os fiéis estão pulando a cerca. Seguidores da Renovação Carismática - fatia da Igreja Católica que mais cresce no país - também freqüentam cultos pentecostais, como os da polêmica Igreja Universal do Reino de Deus, sem enxergarem nisso qualquer incoerência. Nas classes populares, é possível observar que os dois rebanhos têm características semelhantes, partilham traumas, buscam na religião o mesmo alento e, agora se vê, às vezes se aventuram por porteira alheia. Esse trânsito de fiéis foi detectado pelo Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris), um órgão anexo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), depois de uma pesquisa que durou quase dois anos.

"Os grupos de oração da Renovação Carismática são muito parecidos com alguns cultos evangélicos. Nas classes populares, esse elo entre os fiéis das duas religiões é muito forte", observa Andréa Damascena, pesquisadora do Ceris e professora de Sociologia da Religião da PUC-Rio. Segundo ela, contudo, esse trânsito tem só uma mão: não foi anotado qualquer relato de pentecostais que freqüentem cerimônias da Igreja Católica.

Andréa diz que não se pode confundir trânsito com migração. "Fizemos um total de 100 entrevistas em que os fiéis explicaram suas conversões às religiões que seguem hoje, dez pessoas em cada um dos grupos analisados no Rio e em Campinas. Nenhum dos entrevistados da Renovação Carismática migrou para o pentecostalismo", garante ela. No Rio, foram analisados os grupos religiosos que atuam no Complexo da Maré, em Ramos - como a Renovação Carismática, a Igreja Universal do Reino de Deus e o Deus é Amor -, e no bairro de Vila isabel - o Maranata Amém. Em Campinas foram também avaliadas a Assembléia de Deus e as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs).

Os pesquisadores tiveram o cuidado de observar as diferenças entre a prática dos fiéis das classes média e popular. "Assim como os seguidores do pentecostalismo, os fiéis carismáticos de origem popular buscam a conversão depois de um trauma pessoal muito forte", diz Andréa. A consolidação das informações recolhidas nas entrevistas mostrou que, na classe média, os valores de cada religião são mais preservados, as diferenças são mais nítidas e o trânsito, menor.

Já na classe popular, os fiéis carismáticos e pentecostais dividem as mesmas expectativas no momento da conversão. "Ambos acreditam em um Deus vivo, que intervém no seu cotidiano. A conversão desses fiéis sempre se dá em um momento traumático", lembra Andréa. A socióloga conta que uma mesma frase foi dita aos pesquisadores por fiéis carismático e pentecostais - "Deus fala aos homens pelo amor ou pela dor".

Mesmo com tantas semelhanças, há uma diferença nítida no ato da conversão. Para o católico, é uma mudança progressiva. Para o pentecostal, uma ruptura brusca.

A pesquisa é inédita em termos de comparação entre a Renovação Carismática, os grupos pentecostais e as CEBs. Faz parte do projeto Realidade urbana no Brasil, programado pelo Ceris para fornecer a agentes pastorais da Igreja Católica as bases para uma reflexão sobre seis questões urbanas: pentecostalismo, televisão, violência, economia informal, novas tecnologias e cidadania. "Firmamos convênios com universidades para fazer as pesquisas. São trabalhos da maior seriedade", garante Rogério Valle, coordenador do Departamento de Estatística e Pesquisas Sociológicas do Ceris.

Para chegar às conclusões que serão transformadas brevemente em livro, os pesquisadores escolheram Rio de Janeiro e Campinas (SP) porque as duas cidades têm dioceses com orientações católicas distintas. "O Rio é conservador e Campinas, progressista", definiu Andréa Damascena.

Novos católicos conquistam a classe média

A Renovação Carismática tem um imenso espaço para crescer na classe média tradicional. A opinião é do coordenador do Departamento de Estatística e Pesquisas Sociológicas do Ceris, Rogério Valle. "Quando se diz que a Igreja Católica está perdendo fiéis, isso se refere à igreja popular tradicional, a igreja das romarias e dos santuários", diz ele.

Mesmo sendo hoje a ponta-de-lança do que se pode chamar de "reação católica", diante do crescimento dos grupos pentecostais, a Renovação Carismática está longe de ser uma unanimidade entre os bispos brasileiros. Alguns bispos são favoráveis ao seu crescimento, mas criticam a excessiva autonomia dos carismáticos. Os que são contra não conseguem digerir o fato de que a Renovação não se submete à orientação da igreja. "Aí, novamente, a Renovação Carismática se aproxima do pentecostalismo. Os fiéis são espiritualistas, vão direto a Deus, não precisam da mediação do padre, do bispo, da instituição", lembra Rogério.

De acordo com o pesquisador, os carismáticos resgatam em seus grupos de oração muitos símbolos que a missa tradicional deixou para trás, como os cânticos e as ladainhas. "A Renovação Carismática está convertendo católicos em novos católicos", diz a socióloga Andréa Damascena.

Rogério Valle lembra que a Igreja Universal do Reino de Deus se aproxima de alguns símbolos do catolicismo tradicional. "E tem mais tolerância moral que a Assembléia de Deus. Por isso, atrai tantos fiéis..."


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